31 de jan de 2018

"DEAD FLOWERS" (OU: PRA NÃO DIZER QUE EU TAMBÉM NÃO FALEI DE FLORES)



vai findando,
perdido adolescente,
um janeiro de paixão louca

                               e imprudente.







I.

Impreciso horário de verão, final de tarde, talvez início da noite.

Esquina, sinal fechado no meu peito no cruzamento.

O vendedor de rosas oferecia vermelhas e amarelas.

Lembrei: Oyá, senhora dos ventos, ou Oxum, águas doces, sedutora? Ardilosa também, dizem alguns. Caetano fala que “teve o negócio de você perguntar o meu signo”, mas nós numa noite especulamos Orixás, eu com a quase certeza de Oyá, você me dizendo já se saber d’Oxum.

Cena estranha aquela, recordar o diálogo sobre divindades iorubas escutando Have a cigar do Pink Floyd no carro. Pink, rosa. Cor-de-rosa vermelha ou amarela.

Nas mãos do vendedor havia também maços de cores imprecisas como o horário de verão: dia ou noite? Era um entre-tempo, transição, era um “quando o silêncio saia de seus guardados”, como disse uma vez Riobaldo sobre o lusco-fusco do amanhecer, no Grande Sertão do Rosa. Ou era o contrário? Faz diferença? O Rosa, a rosa, o vendedor entre os carros. Algumas até já meio murchas, resto de rosa, sobra: falta, aquilo que resta.

“As rosas não falam”.

Sinal fechado signo estancado num lapso denso, finalmente ficaram para trás o vendedor e suas rosas que logo poderiam ser as dead flowers da canção dos Stones. Tomei o rumo da noite.



II.

Contei que tomei o rumo da noite?

Noite insuportável, túnel de estrada que não termina, chamei Janis porque ela gritava escancaradamente e às vezes usava coroas de flores nos cabelos.

Apropriei-me de seus gritos como se saíssem de minhas entranhas: “cry baby!”

Take another little piece of my heart!”: fatia, eu fatiado dirigindo pelas ruas pouco movimentadas. Sabe, verão, férias, fim de semana. Segui me despetalando como iria acontecer fatalmente às flores do vendedor, aquele do cruzamento, encruzilhada, crossroad.

Este é o destino das rosas e outras flores: despedaçarem-se até apodrecer, deteriorar. Menos as de plástico, elas não morrem. Não sou de plástico nem sou flor-que-se-cheire, como o Caetano: “juro que eu não presto”.

Enfim chego ao destino, destino é lugar de chegada? Chego mesmo que não seja e me encerro, cerro, cerração, hoje não tem neblina mas não está mais tudo azul, tudo “blues”: Janis às vezes usava flores nos cabelos.


III.

Perguntei se destino era lugar de chegada, lembra? Chegada, pouso, repouso é fim da inquietude? Então não cheguei porque chegar é fim de viagem.

Arnaldo bate com os punhos fechados em seu próprio peito, depois, seguindo no crescendo da canção, grita: “eu já disse adeus, eu já disse adeus [...] aqui não tem amor!”. Blefe de poeta, ops, de seu “eu lírico”. Não tivesse amor não explodiria um grito. Arnaldo sabe, por isso blefa. Coração fechado com as chaves jogadas fora? Ora, isso é o que se quer dizendo que não, SQN. Quisesse mesmo não avisava, não cantava, não gritava.

O grito suplica para que batam na porta, pancadas daquelas que quase arrebentam as dobradiças. Urgências, arrebatamento, paixão, como as guitarras de Edegard Scandurra e/ou de Pete Townshend. Who?

Qualquer poema escancarado, tudo me serve, tudo me implode.

Tudo começou quando falei de flores, lembra? Dead flowers, as flores no cabelo de Janis, flores de plástico que não morrem, as rosas nas mãos do vendedor, ele as oferecia no cruzamento da minha vida, o sinal fechado estancando o fluxo de sangue nas veias...pulso...pulso...pulso. Tá tudo errado, o sinal para seguir deveria ser o vermelho arterial.

Queria mesmo te convidar pra correr estrada, ouvir blues, ficarmos bêbados e desmaiarmos nus, aí sim, destino, mas não ponto de chegada, só pit stop.
Não tem essa de “meu momento atual”, nem isso e aquilo. Faltou mesmo foi tesão: posso conviver com tua ausência de paixão, não com a minha.

Sou Keith Richard esvaindo-me em cigarros e riffs. Sou Cazuza exageradamente transtornado no lado escuro da vida. Sou o grito de uma canção desesperada de amor: “Layla, you've got me on my knees!”


IV.

So what?

Quem disse que jazz não explode?

Miles, Chet, Nina, Ella, John Coltrane e a descendência toda desesperadamente blues: Bessie, Billie, Janis e Amy.

Jazz explode, só que em algo meio azul, aquele azulado noturno das regiões dos bares, pessoas circulando com long necks nas mãos, encontrando, perdendo ou só circulando mesmo, andando em voltas, às voltas com desejos, alguns confessáveis, outros não. Desejos que não se sabem.

You might find the night time the right time for kissing

Azul, azuis. Azul-melancolia, existe? Você me disse que via melancolia em meu olhar, lembra? É minha cor preferida, é um Kind of Blue.

Onde termina o blues e começa o jazz?

Não estou perguntando sobre tons, acordes, andamento, escala! Quero, preciso desesperadamente saber onde termina uma dor e começa outra. Ou não, simplesmente salto de um lado ao outro e é a mesma dor? Pain to heal pain, “dor para curar a dor”, explicou o velho bluesman.

Quero saber também porque todo mundo pensa que o dia aparece, surge, emerge, quando na verdade é a noite que se escancara sem pudor algum, explode em blues: “love me or leave me or let me be lonely”.

Você não sabia? Não se ‘mergulha’ na noite, é ela que nos afoga. De novo a imprecisão do instante em que a noite sai de dentro do dia, mergulho às avessas, encruzilhada, passagem, sinal fechado, não há azul no semáforo...

... nem flores azuis nas mãos do vendedor.

E daí?



RJdS, janeiro blues, 2018

18 de jan de 2018

Le fantasme

Marlène Raymaekers, Daphné et Apollon, s/d
               







                        

Rafael José dos Santos


                        Tu, fantasma,
                        açoite de meu
                        desejo aflito,
                        estás
                        onde não te busco,
                        enuncia-me
                        com palavras
                        que me furtas.


                         Oferece-te,
                         fantasma,
                         para que eu
                         em travessia
                         e desespero
                         enfrente
                         a tormenta,
                         correntes
                         ventos e
                         vagas,
                         com
                         amarga
                         lucidez,
                         tamanha
                         e tanta,
                         que me penso
                         naufragado
                         em ti,
                         
                         quando na praia
                         meu corpo,
                         arremessado e
                         só,
                         pela primeira vez
                         em fugaz verdade,
                         abandonado
                         repouse enfim.

                                                                                      RJdS - 18/01/2018











                                                                        



                                                                        

11 de jan de 2018

“E NÃO PENSA QUE EU FUI POR NÃO TE AMAR”: LOS HERMANOS, JACQUES-ALAIN MILLER E OS “SERIAL LOVERS”

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Macuri Peteffi

&


Rafael José dos Santos













CENA I



           A canção traz o título de “Adeus você”, composição de Marcelo Camelo, e está no álbum sintomaticamente intitulado “Bloco do eu sozinho” (2001). Na letra-poema, o “eu lírico” abandona o outro sob o pretexto de um imperativo que, contra seu próprio discurso, pode ser interpretado nos termos de uma incapacidade de amar:

Adeus você
Eu hoje vou pro lado de lá
Eu tô levando tudo de mim
Que é pra não ter razão pra chorar
Vê se te alimenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar

Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

Adeus você
Não venha mais me negacear
Teu choro não me faz desistir
Teu riso não me faz reclinar
Acalma essa tormenta
E se aguenta, que eu vou pro meu lugar

É bom às vezes se perder
Sem ter porquê, sem ter razão
É um dom saber envaidecer
Por si, saber mudar de tom

Quero não saber de cor também
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante
Pra que minha vida siga adiante

            Trata-se da “liberação do outro” para que o “eu lírico” possa cuidar de si mesmo em “seu lugar”, um lugar que lhe é próprio, exclusivo e excludente: um lugar no qual o outro não cabe, logo, não é um lugar comum aos dois, um espaço necessário às trocas que constituem o amor. A voz que se despede sustenta um discurso de aparente cuidado para com o outro (“Cuida do teu / Pra que ninguém te jogue no chão / Procure dividir-se em alguém”), mas não esconde o ato egoísta do abandono, reiteradamente repetido ao final: ”Pra que a minha vida siga adiante”.  

            Conselhos e afagos da parte de quem abandona surtem no abandonado um efeito contrário e o sujeito-que-foge “sabe” disso. O discurso do cuidado se trai, (como todo discurso): “Procure dividir-se em alguém”, ou seja: procure alguém que, aceitando sua falta, lhe dê o algo que eu nego.

            Nota-se a urgência de uma fuga e as precauções para que ele mesmo, o “eu lírico”, não reincida, não se dobre ao amar. Há um jogo de linguagem bastante revelador quando aquele que foge diz “Não venha mais me negacear”. Negacear, como verbo transitivo, significa “Fazer negaças a; seduzir por meio de negaças; provocar, enganar”, mas também “recusar” e “negar” (Dicionário Online de português). Negaças, segundo o Houaiss, é substantivo feminino: “artifício para iludir ou seduzir; ardil, logro”.

            Na letra/poema, quem foge, foge do quê? Quem recusa, recusa o quê? Por que o receio da sedução pelo objeto abandonado? Ocorrem aqui as palavras de Jacques-Alain Miller:

Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que creem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias[1].


            Seria o “eu lírico” um/a serial lover, ele/a mesmo/a? Após o jogo da sedução, retira-se da cena, do espaço comum, e num lapso de linguagem solicita, numa inversão perversa de papéis, que o outro não o seduza. Quem opta pela solidão? Quem a ela está condenado/a pelo ato do abandono?

            Neste caso, com o sintoma de uma falta não confessada, nem ao outro nem a si mesmo/a, o “eu lírico” se apresenta como um/a perverso/a que certamente não irá “seguir adiante”, mas prosseguir na repetição causando perdas e danos a si mesmo e ao seu redor:
O perverso permanece cativo de uma economia desejante que o priva desse direito ao desejo. Ele se exaure na tentativa de demonstrar, a contrário, que a única lei que reconhece no desejo é a lei imperativa do seu próprio desejo, e não a do desejo do outro[2].
            O sujeito-que-foge sabe-se objeto do desejo, [“a”], mesmo que, lugar comum na psicanálise, não saiba que sabe. É sua verdade ou, se alguém preferir, sua ficção: é o sujeito que se queixa repetidamente de sua própria inconstância, queixa que é também álibi de sua estrutura. É seu saber-se objeto do desejo do outro que conota sua perversidade: atrai (a trai, ou o trai) já antecipando o abandono.
            Marcelo Camelo, falamos agora do compositor, não de seu “eu lírico”, não deixa um espaço sequer de esquiva na relação do sujeito que foge do amor com a potência da rachadura produzida pela dinâmica arrebatadora da perda, do deixar, do desfazer e do desatar. O artista, neste caso o letrista-poeta, surge como o interlocutor do inconsciente com a cultura e os seus mais diversos modos de produção, arrisca e acerta os pontos sensíveis dos sentidos desnorteadores do desamor. Lembrarmo-nos de Jacques Lacan, que não deixou por menos: “[O psicanalista deve] se lembrar, com Freud, que em sua matéria o artista sempre o precede, e que ele não deve se meter a psicólogo ali onde o artista lhe abre os caminhos” [3]. Não se trata de psicologizar ou psicanalisar o artista, sua escritura musical e poética. Na contramão disto o artista e o amor não se deixam fisgar pelo apelo da consciência.

            É ainda nesta levada que Marcelo Camelo parece, ao olhar como olhamos agora, para o amor e suas estruturas, ter sido atento (sem o saber?) à Jacques Alain-Miller e Caetano Veloso. “Se em Miller encontramos “..mas do amor não conhecem nem os riscos, nem as delícias”,  em Caetano localizamos uma de suas ideias “mais-ainda” repetidas: “... cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Aí, nos parece acontecer um encontro entre o amor e seus riscos, o amor e suas dores e o amor e suas delícias. Um tripé pouco conveniente aos sujeitos que podem idealizar o amor como um campo de repouso e descanso para as suas pulsões.

            A premissa de senso comum acerca do “estar-bem-consigo-mesmo” para só então estar pronto para o amor é, portanto, rigorosamente uma falácia, produto do individualismo-sintoma na cultura do narcisismo, uma vez que o amor se fundamenta necessariamente no assumir uma falta. De novo com Miller: “amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo”. Ir “além de si mesmo”.

            O discurso da autossuficiência encontra eco, ao mesmo tempo em que é um dos elementos estruturantes, da cultura contemporânea. Um de seus riscos é fazer o Sujeito acreditar (porque não se trata de “má fé”) que ele ou ela pode supri(mi)r sua própria falta, o que lhe fornece também a ilusão da proteção contra o sofrimento que poderia ser-lhe impingido pelo outro. Assim fala a ilusão da autossuficiência:

Eu tô solteira porque relacionamento não é tentativa, não é oportunidade é investimento. Investimento de tempo. Eu to solteira porque talvez eu queira curtir essa fase sem ninguém, quero organizar a minha vida refazer meus planos. Eu to solteira porque estou bem assim, porque não quero alguém pra diminuir, quero alguém que venha para somar[4].

            Não há lugar para risco ou tentativa, aspectos de qualquer relacionamento, uma vez que o “investimento” deve trazer lucros sem riscos. Como, entretanto, amar sem correr riscos? Querer “alguém que venha para somar” é solicitar um acréscimo, não um preenchimento; um suplemento, não um complemento. É negar a natureza relacional...dos relacionamentos! Esse é o discurso sustentado na contemporaneidade e que encobre, sob a capa de uma aparentemente saudável autopreservação, o medo do abismo do Amor.
            Ir “além de si mesmo” é desprender-se, como na estrofe de Beto Guedes em Medo de amar:

O medo de amar é não arriscar
Esperando que façam por nós                                                                             
O que é nosso dever: recusar o poder.

            A recusa do poder é a recusa da autossuficiência, condição sine qua non da entrega, qualquer entrega amorosa, seja a um outro singular, seja a uma causa coletiva.
            O estilo arrasador do desamor vai provocar em seus “seriais”, seriados e séries, narrativas censuradas, discursos fragmentados e capítulos apagados. É neste enrosco que o não-cessar pulsional coloca os sujeitos nos movimentos amorosos e onde os seus inconsciente podem, ou não, se encontrar. O/a perverso/a é um triste condenado ao não-encontro.

*
*   *

           




[1] MILLER, Jacques-Alain. “Para Amar, É Necessário Reconhecer Que Se Tem Necessidade Do Outro”. Disponível em: http://www.portalraizes.com/amarreconhecernecessidade/. Acesso em 09/01/2018.


[2] KAUFMANN, Pierre. (Ed). Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p. 421. 
[3] LACAN, Jacques. “Hommage fait à Marguerite Duras, du ravissement de Lol V. Stein », in : Marguerite Duras, Paris, Albatros, 1979.

[4]  Thamilly Rozendo. Vem cá que eu te conto porque to solteira. In: SIMÕES. Fabíola. Soma de todos os afetos. Disponível em: http://www.asomadetodosafetos.com/2016/05/vem-ca-que-eu-te-conto-porque-to-solteira.html. Acesso em 11/01/2018. Sugerimos a leitura na íntegra por tratar-se de um texto revelador do narcisismo contemporâneo.

28 de nov de 2017

Língua adotiva







                                                 Xavier Vatin*

Acabo de entender, depois de 10 anos de inquietação, angústia e perplexidade, o porquê  da minha imensa dificuldade em falar francês, minha língua materna, com meus filhos no dia-a-dia. Muito antes de eles nascerem, sempre tive a convicção da importância do bilinguismo precoce. Sempre imaginei as melhores formas de exercer esse bilinguismo tão útil para o futuro deles, além de muito positivo do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, segundo os especialistas (tenho vários livros sobre o tema). 

Contudo, ao longo dos últimos dez anos (minha filha Luna tem 11 e meu filho Luca tem 7), nunca consegui falar regular e/ou diariamente francês com eles, aqui no Brasil. Na ocasião de curtas viagens de férias na França para visitar a família, Luna, contudo, demonstrou uma notável facilidade para entender e falar francês (fato este que vinha amenizar meu sentimento de culpa). Da última vez que fomos, o ano passado, quando Luca tinha 6 anos, ele também já demonstrou uma certa facilidade na compreensão da língua. 

Mesmo assim, até o fatídico dia de hoje, fazia dez anos que eu buscava entender as razões do meu bloqueio em falar minha língua materna com meus filhos. Entre elas, sempre considerei que o fato de viver no Brasil e estar inserido cotidianamente na realidade local (trabalho, escola, vida doméstica) era a razão essencial desta recorrente dificuldade. Afinal, é bem mais fácil falar português na realidade diária brasileira do que tentar falar, “artificialmente”, o francês. 

Diante de tamanha dificuldade, tentei estabelecer, ao longo dos anos, diversas regras: falar francês em casa com eles dois, falar francês um determinado dia da semana, falar francês algumas horas por dia, ler histórias em francês para eles... Comprei, de fato, dezenas de livros em francês para eles e já consegui ler algumas vezes, na integralidade, “O Pequeno Príncipe”, para ambos, quando eram mais novos. Mas a experiência de leitura, até hoje, não foi muito além dessa narração noturna da obra prima de Saint Exupéry... 

Mais uma vez, me sinto um pouco menos culpado quando vejo a relativa fluência de Luna na ocasião das referidas curtas viagens à França – fluência notável e até surpreendente, repito, diante da pouca exposição dela à língua materna do pai dela. 

Ora, hoje à noite, tentando contar para Luca a história da vida dele em francês na hora de colocar ele para dormir, entendi finalmente, repentinamente, a causa profunda, verdadeira, desses dez anos de desencontro perturbador com a minha língua materna. 

O português do Brasil tem se tornado, ao longo dos últimos 25 anos, a minha língua adotiva, a língua na qual aprendi a expressar meus sentimentos, minhas emoções, de uma forma que eu nunca tinha conseguido na minha língua materna, o francês. 

Vivi uma infância feliz, porém marcada, aos 7 anos, por uma ruptura abrupta, profunda. Deste trauma inaugural do ser humano que sou até hoje, seguiram longos anos de silêncio, emoções sufocadas, choros escondidos, palavras nunca ditas. Até os 21 anos de idade, quando vim para a Bahia pela primeira vez, eu ainda era essa criança de 7 anos absolutamente inapta a expressar, verbalizar seus sentimentos, suas inquietações, seus medos, suas raivas contidas, suas dores, suas feridas abertas. 

A Bahia me ofereceu a possibilidade de me expressar de uma forma nova, inédita, salvadora. Ao longo dos últimos 25 anos, aprendi, inconscientemente, a libertar uma fala presa há tantos anos. E essa libertação aconteceu, gradualmente, nessa nova língua adotiva. 

Portanto, acredito, hoje, que a minha extrema dificuldade em falar francês com meus filhos, aqui no Brasil, no dia-a-dia, seja a consequência dessa história um tanto peculiar. A língua portuguesa tem se tornado, para mim, muito mais do que uma segunda língua. A língua portuguesa, para mim, foi e continua sendo um instrumento de libertação psíquica e emocional. 

Hoje, tentando contar sua história de vida para meu amado filho na minha língua materna, ao meu ouvir falando, buscando as palavras com dificuldade, palavras estranhamente isentas de afeto, compreendi, finalmente. Parei. Refleti. E prossegui a narrativa até ele dormir... Porém, em português, reencontrando instantaneamente fluência e afeto. 

Concluo afirmando que, para mim, a língua do afeto, a língua da libertação e da transmissão do amor filial, não é a minha língua materna, mas sim a minha língua adotiva. 

A Bahia teve a bondade de me adotar quando me joguei nos braços dela, 25 anos atrás, em busca de um abraço salvador e libertador. A Bahia fez de mim um homem novo, mais livre do que a criança e o jovem adulto enclausurado em si que eu era e sempre fui na minha terra natal e na minha língua materna. 

A língua portuguesa tem sido o instrumento da minha alforria emocional. 

Axé! 

Xavier Vatin


* Xavier Vatin é francês e foi adotado pela Bahia aos 21 anos de idade, quando passou a conviver com Pierre Verger e iniciar pesquisas etnomusicologicas sobre o candomblé. Professor de antropologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia desde 2006 e com pesquisas sobre as musicas afro-atlânticas, Vatin é pai de dois filhos franco-baianos, Luna, 11 anos, e Luca, 7 anos.

12 de abr de 2017

Para aprender sociologia: uma introdução

Clicando aqui você pode fazer o download gratuito do meu e-book: Para aprender sociologia: uma introdução.

Ele foi escrito em linguagem acessível para todos aqueles que se interessam em saber um pouco sobre a Sociologia e o estudos dos fenômenos sociais.

Um pedacinho da Introdução:


Provavelmente a Sociologia seja uma novidade para você, aluno do Ensino Médio ou de algum curso superior, ou ainda, quem sabe, apenas alguém que abriu este pequeno livro para saber um pouco mais. Iniciamos aqui nossa conversa.
A Sociologia pode estar entrando agora em sua vida, mas a sociedade está ao seu redor, está dentro de você, e você nela, desde os primeiros dias de sua infância. Vamos pensar em um exemplo bem comum: você se comunica com outras pessoas. Mas para que isso aconteça você teve que aprender um código, uma língua. Ela lhe foi ensinada aos poucos, primeiro no ambiente familiar, depois também na escola.
O fato de aprender a comunicar-se já é um sinal da presença da sociedade dentro de você. E você não aprendeu apenas isso, mas também a vestir-se, alimentar-se de determinada maneira, comportar-se, enfim, uma série de normas e valores que são sociais, vieram de fora para dentro de você. Acontece, contudo, que esse processo de aprendizagem ocorre de tal maneira que aparece a cada um de nós como algo natural, isto é, não social.
Além de percebermos o social como natural, também vivenciamos as coisas da sociedade como acontecimentos individuais. Em seu dia a dia, você vai às aulas, faz compras, trabalha, convive com a família e com amigos, fica irritado, feliz, triste. Cada ser humano percebe e sente sua vida como algo particular, pessoal.
Entretanto, muitas pessoas vão às aulas, fazem compras, convivem com famílias e amigos, irritam-se, ficam felizes ou tristes. Você dirá: é óbvio que é assim. Sim, é óbvio, mas não é dessa maneira que experimentamos o mundo cotidiano. Nós o vivenciamos como algo pessoal. Estar desempregado, por exemplo, é algo que traz angústia, insegurança e preocupação. Se alguém atravessa uma fase assim, não irá pensar no desemprego como um fenômeno social. Um trabalhador que perdeu o emprego porque aconteceu uma crise financeira mundial não ficará analisando as razões econômicas e sociais da crise. Ele terá coisas imediatas com as quais se preocupar.
Quando você tem que enfrentar o cotidiano da escola, no nível médio ou na faculdade, não irá pensar o tempo todo na estrutura do ensino ou na relação entre a educação, as transformações no mundo do trabalho e suas consequências sociais. Quando vai às compras, não tentará estabelecer vínculos entre os meios de comunicação, a publicidade e os interesses das grandes empresas globais. Ou seja: nem sempre pensamos sobre aquilo que vivenciamos no dia a dia.

Por outro lado, em algumas ocasiões pode acontecer de você refletir sobre como as pessoas estão se tornando mais individualistas, consumistas, ou como, na vida contemporânea, o tempo parece menor. Assistindo notícias na TV, você pode indignar-se com a violência e a corrupção. Ou seja, coisas que acontecem na sociedade. Interessar-se por Sociologia é, antes de tudo, interessar-se pela sociedade. Esse é o primeiro passo.

28 de fev de 2017

Na encruzilhada, de joelhos: “dor para curar a dor” *

Rafael José dos Santos


Em 1995, recém chegado em Nova Iorque com uma bolsa de estudos, descobri que John Hammond iria dar um show no Museu de História Natural. Para quem não o conhece, John Hammond é um daqueles bluesmen que faz a música soar como se estivéssemos em algum lugar entre o Mississipi e a Louisiana.

Chegando ao Museu (aliás, um lugar improvável para um show de blues), fui abordado por um norte-americano que me pediu informações sobre onde comprar o ingresso. Entramos juntos na fila do guichê e, após cinco minutos de conversa, ele me veio com algo mais ou menos assim: “– Como um cara do Brasil sabe algo sobre blues?”.  

            Fiquei extremamente ofendido e comecei a desfiar uma série de nomes de cantores, álbuns, canções, além de sugerir ao homem que sabíamos muita coisa no Brasil, mas eles sabiam quase nada de nós. O norte-americano ficou meio sem jeito e pediu desculpas. Entrou comigo no espaço reservado ao show, assistimos John Hammond, performance incrível como sempre, depois saímos juntos conversando. Hoje, só no espaço de tempo em que escrevo essas linhas, já trocamos uns três ou quatro e-mails. Em um deles ele relembra o episódio e me pergunta de gozação: “-What does a guy from Brazil know about the blues?” (O que um cara do Brasil sabe sobre o blues?). O blues forjou uma amizade que se estende há mais de dez anos, sem perda de contato, e cada visita do amigo é uma enxurrada generosa de livros e CDs.

            No mesmo e-mail o amigo Tony cita uma frase de Sonny Boy Williamson: "White guys want to play the blues so bad, but, man, all they do play the blues so bad." O trocadilho do velho bluesman só faz sentido em inglês devido à ambiguidade da palavra “bad”, que no contexto significa querer “muito” e tocar “mal”: Caras brancos querem muito tocar o blues, mas todos eles tocam realmente muito mal.

     O filme Crossroads (1986, direção de Walter Hill com a impecável produção musical de Ry Cooder) trata disso de modo interessante: um garoto branco de Nova Jersey diz ao velho homem negro que é um bluesman. O homem, supostamente o lendário Willie Brown, amigo de Robert Johnson, ironiza o menino e a partir daí começa um verdadeiro rito de iniciação, com uma peregrinação ao sul dos Estados Unidos. O resto, só vendo o filme.

Williamson, felizmente, não tinha razão. O próprio John Hammond é prova disso, como também Eric Clapton, quando quer tocar blues, ou John Mayall. Caras brancos e brasileiros também sabem tocar o blues, é só ouvirmos o que rola por Caxias do Sul para saber. Mas qual é a magia desse estilo, na verdade um conjunto de estilos que foram se formando através de mesclas diversas? Muitos de minha geração chegaram ao blues por um percurso inverso que começou com o rock.

O norte-americano McKinley Morganfield nos diz: “Well you know the blues got pregnant / And they named the baby rock& roll” (Bem, vocês sabem, o blues ficou grávido / e deram à criança o nome de rock & roll). Soa familiar? Mr. Morganfield é mais conhecido como Muddy “Mississipi” Waters, um nome interessante: tanto pode ser entendido como um homem chamado Muddy Waters vindo do Mississipi, estado onde nasceu em 1915, como, literalmente, “águas lamacentas do Mississipi”, rio que se tornou sagrado para o blues.

A vida de Muddy Waters é a metáfora da história do blues: nascido no sul dos Estados Unidos, Muddy migrou para Chicago, onde faleceu em 1983. Só que em Chicago o blues não morreu, ganhou nova face, dizem, pela introdução da guitarra elétrica pelas mãos de Muddy que, curiosamente, não era um virtuose no instrumento.

De qualquer maneira, se o blues é pai e mãe do rock, Muddy Waters certamente é um de seus padrinhos. Mas, e os avós da criança? O musicólogo norte-americano Eric Lomax defende a ideia de que o blues origina-se do estilo dos cantores griot do Sudão, poetas da tradição oral e narradores da vida cotidiana, mas sugere que se possa retroceder ainda mais, até as melodias melancólicas do antigo oriente que ele caracteriza como “queixas” (complaints) dirigidas a divindades ou aos senhores de terras por camponeses submetidos a duras condições de trabalho e altos impostos. O estilo teria migrado para o Sudão, para o leste da África e de lá atravessado o Atlântico na diáspora impingida aos povos negros.


Em um álbum excepcional, produzido por Lomax, Roots of the Blues (Raízes do Blues. New World Records, 1977), há pistas desse percurso. Na primeira faixa aparecem, intercaladas, a música Louisiana cantada por Henry Ratcliff euma Field Song from Senegal (Canção do campo, do Senegal), entoada por Bakari-Badji. O contraponto ilustra melhor que qualquer explicação escrita as similaridades na entonação, sobretudo o sentimento da solidão de quem canta.

Roots of the blues é mais que um álbum: é um documento imprescindível sobre a história dessa música que desaguou, como as águas do velho Mississipi, em tantas variantes musicais, do jazz ao rock. Quando indígenas norte-americanos falantes da língua Ojibwe batizaram o “grande rio” de  misi-ziibi, não podiam saber o que ele viria a significar mais tarde.

No mesmo álbum organizado por Lomax é possível ouvir canções de trabalho (working songs) que o pesquisador gravou de um grupo de prisioneiros de uma penitenciária rural. Lomax afirma que no extremo sul dos Estados Unidos essas instituições penais eram como extensões das plantações de algodão. Compasso marcado pelas pás e picaretas, um lamento triste pauta o ritmo do trabalho, como Berta, Berta:

O Lord, Berta, Berta, O Lord, gal oh-ah (Oh Senhor, Berta, Berta, oh Senhor, garota.)
O Lord, Berta, Berta, O Lord, gal well. (Oh Senhor, Berta, Berta, oh Senhor, garota.)

Go ‘head marry, don’t you wait on me oh-ah, (Vá em frente e se case, não espere por mim)
Go ‘head marry, don’t you wait on me well, (Vá em frente e se case, não espere por mim)

Might not want you when I go free oh-ah,
(Posso não querer você quando eu for livre)
Might not want you when I go free well.
(Posso não querer você quando eu for livre)

            Berta, Berta pode ser ouvida também em outro álbum que traça a história do blues e do jazz de modo magnífico: I heard you twice the first time, de Branford Marsalis  (Sony, 1992). Eu diria que esse trabalho de Marsalis, junto com a coletânea de Lomax, são verdadeiros temas de casa para aqueles que querem saber do blues.

            Uma estrutura consagrada no blues é a da repetição e síntese, como no célebre Crossroad blues de Robert Johnson:

I went to the crossroad, fell down on my knees
I went to the crossroad, fell down on my knees
(Eu fui à encruzilhada e caí sobre meus joelhos)
Asked the Lord above "Have mercy, now save poor Bob, if you please"
(Pedi ao Senhor acima, “tenha piedade, salve o pobre Bob agora, por favor)

            Robert Leroy Johnson, como Muddy Waters, nasceu no Mississipi. Há dúvidas em relação à exatidão do ano, mas fala-se em 1911. Faleceu, segundo a lenda, após tomar um whisky envenenado por um dono de bar enciumado por Johnson haver paquerado sua mulher: morte de bluesman. Entre 1936 e 1937 gravou 41 faixas, das quais 13 canções foram repetidas duas vezes, e está tudo registrado na coletânea Robert Johnson – The Complete Recordings, que pode ser encontrada em CD, mas, se possível, recomendo fortemente a caixa com três bolachões de vinil lançada no Brasil pela Columbia em 1990.

            A lenda acerca do pacto que Robert Johnson teria feito com o diabo (afinal, quem era o Lord above da encruzilhada?) é significativa se lembrarmos que no Brasil, o orixá Legba ou Exu foi sincretizado também com a figura do demônio. Os domínios de Legba são os cruzamentos dos caminhos, das estradas, os crossroads. Por outro lado recorre também o tema de Fausto, o acordo com Mefistófeles que leva o demandante ao sucesso à custa de sua alma. Em Crossroads, o filme, o diabo é o empresário e a compra da alma (soul) é a submissão ao mercado que destruiria a essência do blues.

Não tenho certeza se as lendas e mitos do blues devam ser “esclarecidos” à luz de alguma historiografia, e se alguém já o fez, não sei se vou querer ler. Isso pode soar até como injúria, vindo de alguém que tem as ciências humanas por ofício, mas convenhamos: alguma magia deve encantar o mundo, mesmo para um sociólogo. Uma das poucas racionalizações que não se pode abrir mão é a lembrança de que nada havia de romântico nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos: os cotton fields eram lugar de sofrimento, penúria, e o lamento negro era uma prece. Na contrapartida da escravidão, os negros do sul entregam aos Estados Unidos as raízes de sua própria música. Ironia ou sutileza?

Na primavera norte-americana de 1990 o fotógrafo Walter Carvalho desceu o Rio Mississipi registrando lugares e pessoas do blues, de Illinois à Louisiana. O trabalho está registrado na edição de março de 1992 da revista Íris Foto e fez parte de um projeto que incluiu o vídeo "Blues", sob a direção de João Moreira Salles, e o álbum de mesmo nome lançado pela Som Livre em 1995. O subtítulo do CD “Blues” é: “pain created to heal pain”, “dor feita para curar a dor” (da escravidão, da pobreza, do amor frustrado). Nas fotografias de Carvalho, no filme de Salles e no álbum, os personagens não são os grandes nomes do blues, mas mestres quase anônimos encontrados no caminho do “grande rio”, gente que parece trazer a alma na voz. Muddy Waters é um dos padrinhos do rock, mas há muitos outros que nunca chegaram ao chamado Grande Público: Dave Honeyboy Edwards, Eugene Powell, James Son Thomas e Big Jack Johnson são alguns.

Quando vejo por aí algum garotão entoando o lamento do blues em uma harmônica, penso que a celebração não ira acabar e que as águas do Mississipi ainda vão rolar por muito tempo, lá nos Estados Unidos, aqui no Brasil ou em qualquer outro lugar onde a dor tenha que ser curada, embora a dor da vida não tenha cura.
Bluesmen sabem disso.


* Versão ligeiramente modificada de artigo publicado originalmente no jornal O Caxiense, Caxias do Sul, p. 24 - 25, 11 dez. 2009.

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vai findando, perdido adolescente, um janeiro de paixão louca                                e imprudente. I. ...